UM VILÃO CHAMADO HPV
18/02/2004 - www.hiv.org.br

 

Quando uma pessoa toma conhecimento de ser portadora do HPV, vários são os problemas que passam a preocupá-la. Em alguns casos, associa-se revolta, culpa e angústia muitas vezes justificada apenas pelo desconhecimento de aspectos biológicos do vírus e de sua interação com o organismo. Outras vezes a razão é a apreensão distorcida das informações que lhe são passadas pelo médico ou pela busca de informações em fontes de qualidade duvidosa. A maior parte delas ressalta a relação deste vírus com o câncer do colo do útero que, apesar de existir de fato, não é uma relação direta: o fato de ter HPV não quer dizer, necessariamente, que o paciente terá um câncer. Muito pelo contrário: a maioria das infecções pelo HPV nem chegam a causar doenças e, quando causam, a maioria resolve-se mesmo sem tratamento.

O que é a infecção pelo HPV?

A infecção pelo HPV é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns em todo o mundo. Uma de suas formas de manifestação é a de condilomas ou verrugas, que podem aparecer nas regiões genitais. Também podem produzir lesões planas ou microscópicas ou, ainda, não produzir lesões.
Na maioria das vezes tem caráter transitório, desaparecendo sem deixar vestígios, podendo ressurgir tempos depois ou nunca mais causar lesões. Portanto, quando é feito o diagnóstico, não é possível saber se trata-se de uma infecção recente ou muito antiga.

O que é o HPV?

O HPV é um vírus com mais de 80 tipos diferentes. Na maioria das vezes não causa sintomas mas pode ser transmitido porque está presente na pele genital. Ele pode permanecer neste estado numa pessoa por anos a décadas.
Estes tipos são classificados em de alto risco, baixo risco e risco intermediário, em função da freqüência de sua presença em lesões mais graves. Mas cuidado: o termo alto risco dá margem à interpretação que a portadora de um dos vírus deste grupo tem alto risco de ter câncer e isto não é verdade. A portadora de HPV de alto risco tem mais risco do que a não portadora mas, mesmo assim, este risco é muito baixo.

Como posso saber se tenho infecção pelo HPV?

Os condilomas são formações elevadas, únicas ou múltiplas, claras ou escuras. Freqüentemente são verrugas esbranquiçadas, lembrando a couve-flor, em outras situações parecem pequenos “sinais” que antes não existiam. Normalmente não dão sintomas, embora possam ocasionalmente coçar e sangrar caso sofram algum traumatismo.
As lesões muito pequenas ou planas, são vistas apenas após aplicação de soluções reagentes e através de uma lente de aumento (como na colposcopia). Também podem ser sugeridas num exame preventivo mas este exame, quando negativo, não garante inexistência do vírus.
Quando não existem lesões, o diagnóstico da infecção pelo HPV só pode ser feito por técnicas moleculares. Não há teste no sangue para sua identificação e não aparece nos exames rotineiros. Infelizmente, as pessoas freqüentemente tomam conhecimento da infecção apenas quando a transmitem a(o) parceira(o) e nesta(e) aparecem lesões.
Se você tem alguma coisa diferente no seu pênis ou vagina, procure seu médico. Não tente o auto-diagnóstico ou a auto-medicação.

O que é a colposcopia?

A colposcopia é um exame no qual o médico examina o colo do útero, vagina e vulva (parte externa da vagina e região em volta do ânus) através de um aparelho chamado de colposcópio, que aumenta sua visão. Durante o exame são passados alguns líquidos que revelam a existência de anormalidades. Não dói e a única coisa que é introduzida na paciente é o bico-de-pato (espéculo vaginal), o mesmo que é utilizado para a coleta do preventivo. Verificada alguma anormalidade o médico poderá realizar a retirada de uma pequena amostra do tecido doente (biópsia). Na maioria das vezes a biópsia de colo ou vagina é indolor mas a utilização de anestesia local garante a insensibilidade.
O material obtido por biópsia deve ser examinado em laboratório para concluir a natureza da alteração e orientar a conduta a ser seguida.
Este exame é solicitado quando o preventivo mostra alguma alteração e o seu objetivo é esclarecer que alteração é esta, onde está localizada, sua extensão e sua natureza, se benigna, pré maligna ou maligna. Como normalmente estas lesões são muito pequenas, não são visíveis a olho nu e precisam ser procuradas através de aumento ótico, o que é feito pelo colposcópio.
Em outros casos, o médico assistente solicita o exame para esclarecer algum aspecto que ele observou no exame rotineiro.

Quais são as alterações do preventivo devidas ao HPV?

Na maioria das vezes, as alterações do exame preventivo, também conhecido como "exame de lâmina" ou exame de Papanicolaou, são de natureza inflamatória ou infecciosa e podem ser avaliados durante o exame ginecológico comum e tratados pelo médico assistente. Em algumas mulheres, porém, o preventivo pode detectar uma lesão relacionada ao HPV. Estas lesões são atualmente divididas entre "lesões de baixo grau" e "lesões de alto grau". As lesões de baixo grau são muito freqüentes e normalmente não oferecem maiores riscos, tendendo ao desaparecimento mesmo sem tratamento na maioria das mulheres. Já as de alto grau, têm um risco relevante de progredirem na direção do câncer do colo de útero caso não tratadas.
Este grande número de nomes é resultado de várias nomenclaturas que se sucederam ao longo dos anos e cada laboratório ou médico utiliza a que julga mais conveniente. A nomenclatura mais antiga, que classificava o resultado do preventivo em classes já quase não é mais utilizada porque as "classes III e IV" incluem desde lesões pouco importantes (as de baixo grau), até lesões pré malignas (as de alto grau).
Outros diagnósticos possíveis são ASCUS (Atypical Squamous Cells of Undetermined Significance), AGUS (Atypical Glandular Cells of Undetermined Significance) e câncer. Os dois primeiros são utilizados quando são percebidas anormalidades mas que não são suficientes para conclusão de que realmente existe doença. A última é uma sugestão de que existe uma doença maligna no colo uterino.
Nenhum destes diagnósticos do preventivo é definitivo e a conclusão quanto à existência ou não de doenças pré malignas ou malignas é feita em exame de amostra retirada da área doente (biópsia), visível através da colposcopia.

Quando a colposcopia é necessária?

A recomendação atual do Ministério da Saúde (Programa Nacional de Combate ao Câncer do Colo do Útero, 1998) é de que a colposcopia é mandatória após um preventivo mostrando lesão de alto grau ou câncer. Quando a conclusão é de lesão de baixo grau, ASCUS ou AGUS, a recomendação é de que o preventivo seja repetido em 6 meses e, caso o resultado se repita ou piore, aí sim a paciente deve ser encaminhada para realização da colposcopia.
Estas recomendações têm as seguintes vantagens: como a maioria das lesões de baixo grau tendem a regredir mesmo sem tratamento, ao deixar de encaminhar para colposcopia, o médico assistente dá à cliente a chance de que a lesão regrida, evitando exames talvez desnecessários. Também permite que os serviços de colposcopia estejam mais disponíveis para receber mulheres com maior probabilidade de ter lesões de alto grau.
A outra conduta possível é encaminhar para colposcopia todas as pacientes com alterações não inflamatórias do preventivo, isto é, além das lesões de alto grau e câncer, as lesões de baixo grau, ASCUS e ACGUS. Esta conduta tem a vantagem de logo concluir o diagnóstico, possibilitando a adoção de um tratamento, se for o caso. Nesta conduta são feitos mais exames mas não são deixados para depois alguns diagnósticos importantes que às vezes acontecem quando o preventivo sugere uma lesão de baixo grau ou fica em dúvida. Também tranqüiliza, nos casos em que concluímos que não há uma lesão maligna ou pré maligna. As duas posturas são defensáveis e devem ser aplicadas dentro de cada realidade.
Na portadora do HIV, como as lesões pré malignas são mais freqüentes, a colposcopia estará indicada sempre que houver uma alteração não inflamatória ou duvidosa.

O que é a CAF?

CAF quer dizer “Cirurgia de Alta Freqüência”. Também é conhecida como LLETZ (Large Loop Excision of the Transformation Zone – exérese da zona de transformação por alça) ou LEEP (Loop Electrosurgical Excision Procedure – excisão eletrocirúrgica por alça). Trata-se de um tipo de cirurgia que utiliza um bisturi elétrico de baixa voltagem e alta freqüência de corrente, capaz de retirar partes de tecido sem causar queimaduras. É atualmente o melhor tratamento para as lesões pré malignas do colo uterino pois, é de baixo custo e pode ser feita sob anestesia local, sem internação. Neste procedimento, a área doente é retirada sem dor e sem conseqüências futuras. Deve ser feita sob visão colposcópica e por colposcopista experiente.

Qual o valor da peniscopia?

A peniscopia é o exame do pênis, bolsa escrotal e região perianal do homem utilizando um colposcópio (vide acima) ou uma lente de aumento e após a aplicação de uma substância reagente. Neste exame podem ser observadas lesões muito pequenas, associadas ao HPV. Todavia, freqüentemente deixa dúvidas e, para confirmação, são necessárias biópsias. Estas lesões, mesmo confirmadas, não têm tratamento. Teoricamente podem ser destruídas uma-a-uma sob visão microscópica, o que levaria muito tempo pois freqüentemente são múltiplas e não conhecemos a eficácia deste tratamento em prevenir futuro desenvolvimento de condilomas ou novos contágios. Ou seja, não há utilidade comprovada.
Quanto às demais lesões, as visíveis, não necessitam da peniscopia para seu diagnóstico. Um exame médico cuidadoso pode fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento.
Um problema é que, em algumas situações, após fazer a peniscopia, o homem pode acreditar-se não portador do HPV, o que pode ser um erro. A inexistência de lesões, mesmo as microscópicas, não garante que o paciente nunca tenha tido lesão ou contato com o HPV e esta má interpretação pode trazer sérias complicações para a relação conjugal.
A abordagem do parceiro masculino é vantajosa para ele próprio, na medida em que descarta lesões que podem passar despercebidas mas não necessita da peniscopia. Também é interessante porque nesta abordagem podem ser passadas informações sobre o HPV e sobre a prevenção de outras doenças sexualmente transmissíveis.

É possível aparecerem condilomas em quem nunca teve HPV?

O HPV tem a capacidade de estabelecer uma infecção latente, na qual nenhuma alteração é percebida ao exame médico ou no preventivo ginecológico. Assim, é possível que uma pessoa apresente uma lesão pelo HPV sem que, necessariamente, tenha havido uma contaminação recente. Isto pode ter acontecido no início da atividade sexual, o que parece ser o mais freqüente.

O que é a hibridização?

Esta é uma técnica de diagnóstico da presença do HPV através da detecção de seu DNA. Estão comercialmente disponíveis a hibridização in situ, a reação em cadeia de polimerase (PCR – Polymerase Chain Reaction) e a captura híbrida. Destas, a última é a mais difundida em nosso meio. Para realizá-la, o médico deve obter material de colo ou vagina, no caso da mulher, ou da uretra, no caso do homem, através de uma escovinha especial e remetida ao laboratório em um recipiente próprio. Ambos podem ser obtidos previamente no laboratório que irá realizar o exame.
Além da presença do HPV, estes exames também identificam o tipo viral envolvido, se de alto ou baixo risco e, no caso da captura híbrida, quantifica indiretamente a carga de vírus presente. Estas informações podem indicar se a portadora tem maior ou menor risco de vir a ter uma lesão pré maligna.
Existe uma grande discussão sobre a necessidade de sua realização. No homem, como a maioria das lesões é externa, tem valor apenas para pesquisa.
Na mulher, é possível que tenha algum valor em situações específicas. Não tem valor algum quando o preventivo já sugere uma lesão pré maligna, quando a paciente deve realizar uma colposcopia. Também não tem valor algum quando a paciente tem uma destas lesões e será ou já foi tratada. Nesta situação, o HPV estará quase sempre presente e os tipos envolvidos serão os de alto risco. O resultado deste exame não mudará a conduta médica.
Já quando a mulher tem um resultado de preventivo mostrando uma lesão de baixo grau ou duvidoso (ASCUS, AGUS), este exame pode ser de alguma ajuda. Caso mostre a presença de tipos de HPV considerados de alto risco existe uma maior probabilidade de estarem presentes lesões pré malignas, especialmente se a mulher tiver mais de 35 anos. Todavia, este exame é bem mais caro do que a colposcopia em nosso meio e sua utilização acaba adiando a indicação da colposcopia e encarecendo desnecessariamente a investigação. Pode ter valia então quando não for possível realizar a colposcopia.
Sua utilização apenas para saber se uma pessoa teve contato com o HPV como quando soube que seu parceiro é portador, também não tem utilidade. Caso mostre-se positivo, não indica que a pessoa tem lesões, o que será mostrado pelo exame médico ou pelo preventivo. Pior: fará com que a pessoa se sinta doente e busque uma série de exames e tratamentos que, na ausência de lesão, trarão mais malefício do que benefício.

Como o HPV é transmitido?

O HPV é transmitido durante a relação sexual com alguém que esteja infectado mas, como depende apenas do contato com a pele, não é necessária a penetração para que haja contaminação. Assim na masturbação ou no contato genital externo é possível a transmissão.
Não existem evidências de que toalhas, roupas íntimas ou assentos de vasos sanitários possam fazer esta transmissão.
Depois que soube que tinha HPV descobri que minhas duas irmãs e minhas colegas da academia também tiveram esta infecção. O que é isto, uma epidemia? Ou será que minhas irmãs ou minhas colegas me passaram este vírus?
O HPV é o vírus sexualmente transmissível de maior freqüência. Alguns estudos sugerem que cerca de 20% de brasileiras tem o HPV e que o risco de uma pessoa tem de ter contato com o HPV ao longo de sua vida pode chegar a 70%. Isto mostra como é uma situação comum e, pelo simples fato de procurar saber da infecção você tenha sido surpreendida com sua freqüência. Não existem evidências de que toalhas, roupas íntimas ou assentos de vasos sanitários possam fazer esta transmissão.

É possível a transmissão do HPV sem que existam lesões?

Sim. Mesmo quando não são visíveis lesões pelo HPV, como os condilomas, é possível que existam lesões microscópicas que não são percebidas pelo paciente e também podem passar despercebidas dos médicos. Além disso, como a maioria das infecções pelo HPV tem caráter transitório, é possível que um portador do HPV transmita-o a(o) sua(seu) parceiro quando existe uma lesão. Em seguida pode ter regressão de suas lesões e nenhum exame mostrará que houve uma lesão passado.

Tive verrugas nos dedos quando criança. Será que vou ter condilomas?

Existem mais de 80 tipos de HPV. Alguns são os causadores da verruga vulgar, comum na infância produzindo lesões nos dedos, joelhos e cotovelos, altamente contaminantes. Todavia, estes tipos de HPV não são os comumente encontrados nas lesões genitais. Os tipos de HPV que causam lesões genitais têm preferência por estas regiões.

Meu parceiro foi examinado e o médico disse que ela não tinha HPV. Como é possível eu ter HPV se ele foi meu único parceiro?

A maior parte das infecções pelo HPV apresenta-se sob a forma de lesões microscópicas, não visíveis num exame comum ou nem produz lesões, o que chamamos de infecção latente. Infelizmente, quando não vemos lesões, não é possível garantir que o HPV não está presente, mas apenas de que não está produzindo doença. Na situação descrita, é muito provável que seu parceiro tenha tido lesões não percebidas, tenha lhe contaminado e, depois, tenha se livrado das lesões. Também é possível que ainda tenha lesões que, pelo fato de serem muito pequenas, não foram percebidas pelo médico que o examinou.

Tive uma relação com uma portadora do HPV e só depois ela me contou isso. Posso ter me contaminado?

Sim, mas não sabemos qual é esta chance por não conhecermos a contagiosidade do HPV. O melhor é manter o uso da camisinha em todas as suas relações e estar atento para o surgimento de alguma lesão tipo “verruga”. Não adianta procurar o médico no dia seguinte. Isto pode levar semanas a meses e caso surja algo diferente, procure seu médico.
A mesma coisa vale para a mulher, só que neste caso as lesões mais importantes são no colo do útero e vagina. Neste caso, a mulher deve estar atenta à periodicidade de realização do exame preventivo (Papanicolaou).

É possível a infecção em virgens ou em crianças?

Sim, se considerarmos virgem a mulher que não teve penetração vaginal e rotura himenal. O contato sexual é muito mais do que a penetração vaginal e, mesmo quando esta é evitada, o contato da pele contaminada com a pele sadia do parceiro(a) pode ser contaminante.
O reconhecimento de lesões relacionadas ao HPV em crianças alertou para a possibilidade da transmissão mãe-filho mas este é um acontecimento muito raro. Quando isto for observado, é interessante pesquisar a possibilidade da criança ter sido vítima de abuso sexual.

Como a infecção pelo HPV é tratada?

Existem vários tratamentos para condilomas (lesões visíveis). Eles podem ser uma simples aplicação de uma substância química ou até a sua retirada cirúrgica.
Já quanto a tratar as lesões muito pequenas ou planas, existe uma grande controvérsia. A decisão de tratá-las depende da história individual do(a) paciente, da extensão da doença e da crença do médico assistente. Alguns tratarão esta forma de infecção enquanto outros vão preferir acompanhar seus pacientes procurando detectar lesões pré cancerosas que por ventura venham a surgir.
Quando não existem lesões, a infecção pelo HPV não tem tratamento específico pois não existe um medicamento contra este vírus.
A escolha da melhor forma de tratamento é do médico assistente em conjunto com seu(sua) paciente. Porém, nem todos os tratamentos são igualmente efetivos para todos os pacientes, o que pode ser frustrante para ambos. Os tratamentos químicos ou cirúrgicos podem eliminar as lesões visíveis mas alguns vírus poderão permanecer nas vizinhanças. Estes vírus podem permanecer num estado latente e podem causar o desenvolvimento de novas lesões no futuro.
Assim, nenhum tratamento garante a cura total e o não aparecimento de novas lesões. Uma pessoa tratada deve ser reexaminada periodicamente para verificar se novas lesões apareceram.
Outro fato a considerar é que não existem evidências de que um casal em que ambos estejam contaminados se beneficiará da abstinência sexual ou sexo unicamente com camisinha. O uso da camisinha é importante para prevenir a transmissão de outras doenças sexualmente transmissíveis.

Existe vacina contra o HPV?

Já houve um método no qual triturava-se lesões do próprio paciente e depois injetava este preparo de volta do próprio paciente, o que era conhecido como “vacina autógena”. Não há nenhuma evidência científica de sua eficácia.
Mais recentemente têm sido estudadas vacinas contendo partículas similares ao HPV, sem seu poder de agressão. Estão descritos resultados favoráveis em animais, já que ainda não começou a ser testada em seres humanos. Atualmente estão prestes a iniciarem-se estudos preliminares em seres humanos, visando estabelecer sua segurança e sua capacidade de gerar anticorpos. Estes estudos precedem estudos maiores, mais demorados e mais caros, nos quais é testada a eficácia propriamente dita das vacinas. Isto é, os estudos de eficácia procuram verificar se as vacinas realmente previnem o desenvolvimento de lesões relacionadas ao HPV.
São inúmeros os problemas a serem resolvidos antes destas vacinas estarem disponíveis comercialmente, o que pode levar mais de 10 anos. Enquanto isto não acontece, o importante é manter a prevenção do câncer de colo do útero através da realização periódica do preventivo e tratar as lesões que incomodam ou que possam ter caráter pré maligno.

Interferon, vitaminas, homeopatia, semente de Copaíba, 5-fluoruracil, bleomicina, ácido meta-cresolsulfônico, medicina ortomolecular são eficazes no tratamento do HPV?

Alguns médicos utilizam estes medicamentos no tratamento da infecção pelo HPV. Exceto pelo interferon, não existem evidências científicas de sua eficácia e, no caso do 5-fluoruracil, pode produzir úlceras na região tratada. O uso dos demais pode ser inócuo mas pode representar gastos desnecessários e, caso presentes lesões pré malignas, pode adiar o tratamento adequado. Existem algumas evidências de que o interferon, quando usado juntamente com algumas outras formas de tratamento, pode diminuir a freqüência de retorno de lesões. Seus efeitos colaterais, aliados ao alto custo e eficácia duvidosa limitam seriamente seu uso.
A experiência dos homeopatas mostra que a Thuya pode ser eficaz no tratamento das verrugas ou condilomas mas não são conhecidos seus efeitos para tratar lesões pequenas ou pré malignas.

Tenho tido condilomas freqüentemente. Posso eu mesmo tratá-los?

Alguns tratamentos podem ser extremamente agressivos ou produzirem queimaduras em áreas sadias. Todavia, em certos casos em que as lesões são muito fáceis de localizar e, dependendo do medicamento indicado, é possível a auto-aplicação. Isto deve ser feito apenas após orientação e sob supervisão médicas.

Depois de tratada, como posso transar novamente com meu parceiro?

O tratamento das doenças relacionadas ao HPV visa apenas o desaparecimento das lesões. Não há, até o momento, algum medicamento capaz de eliminar o vírus de seu organismo. Isto acontecerá na dependência de suas próprias defesas.
Por outro lado, se você tem HPV, é muito provável que seu parceiro também o tenha. Ele pode já ter tido uma lesão que desapareceu ou pode ainda ter lesões microscópicas que não têm tratamento. É possível que ambos convivam com o HPV há muito tempo e vocês devem continuar a viver independente desta informação.
Apesar de existir a possibilidade de um dos parceiros eliminar o vírus e o outro não, re-contaminando o primeiro, não existem evidências de que separar o casal ajuda a prevenir o reaparecimento de lesões. É mais provável que o ressurgimento de lesões, quando ocorre, seja devido a reativação de vírus que estavam em estado latente em seu organismo. Um outro exemplo deste tipo de convivência entre paciente e vírus é o herpes, que aloja-se em nosso corpo e espera uma oportunidade para causar novas lesões. E isto independe de re-contaminação.
Este raciocínio vale para a transmissão homem-mulher, mulher-homem e nas relações homossexuais.

Como posso saber se estou livre do HPV?

Infelizmente não existe um exame que garanta a inexistência do HPV. Mesmo quando não existem lesões visíveis ou quando o preventivo ginecológico está negativo, o HPV pode estar latente, isto é, sem produzir lesões. Pode acontecer de surgirem novas lesões no futuro e, caso isto aconteça, não quer dizer que houve uma nova contaminação. Apesar do mais freqüente ser seu desaparecimento do organismo, o melhor é usar a camisinha mesmo quando não existam evidências da presença do HPV.
Existem exames que utilizam técnicas de hibridização molecular como a captura híbrida e a PCR que mostram a presença do DNA do HPV. São técnicas muito sensíveis e, quando negativos, quase asseguram a inexistência do HPV. Todavia, como qualquer exame, está sujeito à falhas.

Tive uma lesão pelo HPV há mais de dez anos e nunca tive mais nada. É possível ter me livrado do vírus?

Sim. A maioria das infecções pelo HPV tem caráter transitório. Só por este conhecimento é possível afirmar que o mais provável é que você tenha eliminado o HPV. O fato de não ter apresentado mais lesões num período longo também pesa a seu favor. Mas, como existe a possibilidade de manter o vírus em estado latente (presente mas sem produzir lesões) por períodos muito longos, o melhor é manter o hábito de usar a camisinha em todas as relações sexuais.

Eu e meu parceiro estamos com lesões pelo HPV. Sei que este vírus pode continuar conosco pelo resto de minha vida. Estou condenada a casar com ele?

É verdade que ambos podem permanecer portadores do HPV e podem reaparecer lesões em qualquer fase da vida. Mas o mais freqüente é que ambos livrem-se do HPV com o passar de algum tempo, de meses a anos. Sabendo disso, não estão condenados a permanecerem juntos o resto de suas vidas mas lembrem-se de usar a camisinha em qualquer relação futura.
Caso troquem de parceiros, procurem conversar sobre o assunto, atentando para o preconceito que cerca as Doenças Sexualmente Transmissíveis. Assegurem-os da possibilidade de prevenir a transmissão com o uso da camisinha. Quanto aos cuidados para estes futuros parceiros, no caso do homem é estar sempre atento ao surgimento de lesões e, no caso da mulher, à periodicidade de seu preventivo ginecológico.

Sexo oral também pode transmitir o HPV?

A transmissão do HPV ocorre entre pele (ou mucosa) doente e pele (ou mucosa) sadia. Mucosa é o revestimento de órgãos como boca e vagina. Teoricamente, qualquer contato pode transmitir o vírus mas os HPV têm preferência por alguns locais, principalmente a região genital e ânus. Alguns tipos de HPV podem causar verrugas na pele dos dedos, cotovelos, joelhos, como as comuns em crianças. Estes tipos não têm nada a ver com os tipos genitais.
Existe uma diferença entre contaminação e infecção. Contaminar significa transmitir algum microorganismo para outra pessoa ou superfície. Daí a desenvolver uma infecção, há um longo caminho que depende das preferências do microorganismo e da resposta imunológica do indivíduo. Assim, acredita-se na possibilidade de contaminação mas a existência de lesões fora da região genital é muito rara. Além disso, quando uma pessoa toma conhecimento de ser portadora do HPV, provavelmente, já teve a chance de contaminar qualquer local pelo contato sexual e não será a modificação de suas preferências sexuais que evitará o aparecimento de lesões. Caso surjam, serão tratadas. Se por outro lado, você ainda não diversificou muito sua atividade sexual, diria que o baixo risco não compensa limitar sua prática sexual, desde que feita de forma segura. Uma forma de prevenir o contágio é utilizar a camisinha mesmo para o sexo oral.

Qual a relação do HPV com o câncer do colo do útero?

Alguns tipos de HPV aumentam o risco para câncer genital, principalmente em mulheres. É importante lembrar que o exame preventivo pode detectar as lesões que antecedem o câncer, de fácil tratamento.

Além do câncer do colo do útero, o HPV pode causar câncer em outros locais?

O câncer mais freqüente e no qual não há dúvidas da participação do HPV é o do colo do útero. O câncer em outros locais é menos freqüente, o que dificulta seu estudo. Todavia, existem evidências da associação do HPV às lesões pré malignas e alguns tipos de câncer de vagina, vulva, ânus, pênis e garganta.
Como são doenças infreqüentes ou mesmo raras, devem ser procuradas apenas se houver indício ou possibilidade de lesão nestes locais. No caso da vagina, o próprio preventivo ginecológico (Papanicolaou) pode sugerir a existência de lesões. No caso de vulva (a parte externa da vagina) e região perianal (que circunda o ânus), podem ser observados durante o exame médico comum, ginecológico, urológico ou proctológico. No caso do interior do ânus (canal anal), caso haja sexo anal desprotegido existe a possibilidade de lesões internas, que pode ser detectadas num exame proctológico.
Nos demais locais, estas lesões são muito raras. No caso do pênis, são freqüentemente externas e facilmente percebidas pelo paciente. No caso da boca ou garganta, qualquer lesão será facilmente percebida pela sensibilidade do local ou através de sintomas que farão o paciente procurar o médico.

O HPV tem relação com o câncer de pênis?

A maioria das evidências que relacionam o HPV ao câncer referem-se ao colo uterino. Quanto ao câncer em outros locais, como são doenças muito menos freqüentes, existem poucos estudos. Já está documentada a presença do HPV em lesões pré cancerosas e cancerosas do pênis mas, devido à sua raridade, não conhecemos sua história natural. Isto quer dizer que não conhecemos qual a chance de um portador de HPV vir a desenvolver um câncer de pênis. Apesar desta limitação, pela relativa freqüência de condilomas em pênis e pela infreqüência do câncer de pênis, é possível deduzir que, assim como no colo do útero, são necessárias outras condições associadas para que o vírus produza alguma lesão mais grave. Como o câncer do pênis é muito menos freqüente que o de colo, é provável que o pênis seja bem menos sujeito a esta doença. Outro fator atenuante é que, ao contrário do colo e vagina, as lesões no pênis são, na maioria das vezes, externas e facilmente percebidas pelo próprio paciente. Qualquer verruga ou “sinal” que antes não era percebido deve ser examinado pelo médico e, às vezes, biopsiado. Outro aspecto é que, como as lesões malignas relacionadas ao HPV têm evolução lenta, passando antes por uma fase pré maligna, caso inicie-se um progressão de alguma lesão para malignidade, será possível identificá-la e tratá-la, evitando o câncer.

A infecção pelo HPV pode causar problemas durante a gestação?

Um bebê pode contaminar-se pelo HPV antes, durante ou após o parto, mesmo quando nascido por cesariana. Todavia, apesar desta possibilidade, é muito raro o desenvolvimento de lesões pelo HPV em decorrência desta contaminação, o que não é motivo para evitar o parto normal. Também não existe risco de gerar um bebê anormal.

A camisinha previne a transmissão do HPV?

O preservativo ou camisinha-de-vênus (condom) oferece uma boa proteção contra o HPV assim como contra outras doenças sexualmente transmissíveis se usadas durante toda a relação. O problema com o HPV é que o condom somente será efetivo nesta proteção se cobrir as áreas infectadas. Isto quer dizer que, se existem lesões na região pubiana, saco escrotal, ou na parte externa da vagina (vulva), o HPV poderá ser transmitido mesmo em uso do preservativo.
Já com o uso da camisinha feminina, que cobre também a vulva, esta proteção é bem mais eficaz mas deve ser utilizada desde o início da relação.

Por que o HPV é mais comum em portadores do HIV?

Em primeiro lugar, qualquer portador de uma doença sexualmente transmissível (DST) como o HIV teve uma chance maior de contaminar-se com outras DST, como o HPV e outras. Além disso, nos portadores do HIV já com algum imunocomprometimento, é mais provável que o HPV produza lesões, facilitando o diagnóstico e dando a impressão de maior freqüência.
Todavia, esta maior freqüência de lesões relacionadas ao HPV nos portadores do HIV parece não estar exclusivamente relacionada ao grau de imunocomprometimento. Alguns estudos recentes mostram que existe uma interação entre os dois vírus: tanto o HIV seria um facilitador da multiplicação do HPV como o contrário.
A maior freqüência destas lesões nos portadores do HIV mostra a importância da prevenção do câncer do colo do útero e as mulheres portadoras do HIV devem realizar seu preventivo periodicamente conforme orientação de seu médico.

Em que fase da doença relacionada ao HIV podem surgir lesões pelo HPV?

A rigor, em qualquer fase, mas é mais freqüente nas fases em que já existe algum grau de imunocomprometimento, como na fase sintomática precoce. A partir desta fase, também são mais comuns as lesões pré malignas relacionadas ao HPV: as neoplasias intraepiteliais (displasias) do colo do útero e, menos freqüentemente, da vagina, vulva e ânus.
O tratamento destas lesões nos portadores do HIV é idêntico ao dos não portadores e o controle pós tratamento é importante devido à maior freqüência de recorrência de lesões.

Fábio Russomano - Responsável pelo Setor de Patologia Cervical Uterina do Instituto Fernandes Figueira - FIOCRUZ.
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